Artigo de opinião: Ignorar o risco cambial está mais caro

Por David Brito, Country Manager do Ebury Bank no Brasil
Durante muito tempo, o câmbio ocupou um espaço relativamente previsível dentro das empresas brasileiras. Era um tema concentrado nas áreas financeiras, associado sobretudo à proteção contra oscilações do dólar e mais relevante para importadores, exportadores ou negócios com operações internacionais evidentes. Em muitos casos, administrar exposição cambial significava apenas evitar perdas em momentos de maior instabilidade. Essa lógica começou a mudar.
Nos últimos anos, o ambiente global passou a reunir uma combinação pouco confortável para quem opera internacionalmente: juros elevados nas economias desenvolvidas, tensões geopolíticas persistentes, reorganização das cadeias de suprimentos, mudanças nos fluxos globais de capital e maior volatilidade dos mercados. Nesse cenário, o risco cambial deixou de atingir apenas empresas fortemente internacionalizadas e passou a influenciar organizações de diferentes portes e setores, inclusive aquelas cuja exposição ao exterior acontece de maneira indireta.
O Brasil adiciona uma camada extra de complexidade. Historicamente, o real figura entre as moedas mais voláteis do mundo, reagindo não apenas a fatores domésticos, mas também a decisões de política monetária nos Estados Unidos, conflitos internacionais e mudanças no apetite global por risco. Na prática, isso significa que oscilações cambiais podem alterar custos, margens, preços e capacidade de planejamento em períodos relativamente curtos.
Talvez por isso a discussão sobre gestão cambial tenha começado a sair do campo estritamente operacional para ocupar espaço maior nas decisões estratégicas. Hoje, falar sobre câmbio envolve previsibilidade de caixa, expansão internacional, competitividade e proteção de rentabilidade.
As empresas respondem a esse cenário de maneiras diferentes. Algumas optam por modelos mais conservadores, utilizando instrumentos de cobertura para reduzir volatilidade e trazer maior previsibilidade financeira. Outras adotam estratégias mais dinâmicas, ajustando exposição conforme movimentos do mercado e perspectivas macroeconômicas.
Entre esses extremos, cresce o espaço para abordagens híbridas. Em vez de proteção integral ou ausência de cobertura, muitas organizações passaram a trabalhar com níveis parciais de exposição, calibrando decisões conforme perfil do negócio, horizonte financeiro e tolerância ao risco.
A escolha raramente é simples porque o desafio também mudou. Se em economias desenvolvidas a cobertura cambial costuma estar associada à preservação de retorno em ambientes de juros mais baixos, no Brasil a equação inclui volatilidade elevada, custo financeiro relevante e um processo crescente de internacionalização das empresas.
Esse movimento é visível na ampliação dos corredores comerciais brasileiros. Relações econômicas deixaram de se concentrar apenas nos mercados tradicionais ligados aos Estados Unidos e à Europa. Operações com países asiáticos ganharam relevância, cadeias produtivas tornaram-se mais distribuídas e novas moedas passaram a integrar o dia a dia de empresas nacionais.
O resultado é uma gestão financeira mais complexa. Oscilações cambiais podem influenciar desde o custo de matérias-primas até decisões de investimento, precificação e planejamento de expansão.
Ao mesmo tempo, cresce a busca por parceiros especializados para assumir parte da operação cambial. Liquidação, execução, processamento de dados e mitigação de riscos exigem estruturas cada vez mais sofisticadas, levando muitas empresas a direcionar equipes internas para decisões estratégicas e não apenas operacionais.
No fim, a discussão sobre gestão cambial talvez tenha deixado de responder à pergunta tradicional sobre como proteger o negócio das oscilações do dólar. A questão agora parece ser outra: como as empresas brasileiras podem crescer em um ambiente global mais instável sem abrir mão da previsibilidade financeira.
