A tendência de queda do dólar americano é retomada em meio ao impasse no Estreito de Ormuz

O impasse entre os EUA e o Irã dá poucos sinais de arrefecimento, após o presidente Trump ter rejeitado a resposta de Teerã às propostas de paz feitas no fim de semana.
Os mercados começam a se adaptar. Os preços do petróleo permanecem elevados, mas recuaram recentemente devido a uma combinação de destruição de demanda e aumento da produção em outras regiões. As bolsas americanas continuam registrando novas máximas, enquanto as europeias ficam para trás, e o dólar parece ter retomado sua gradual desvalorização frente à maioria das moedas. O par EUR/USD está agora se aproximando dos níveis anteriores à guerra, e algumas moedas de mercados emergentes de referência, como o real brasileiro, apresentam ganhos expressivos no período.
Com as negociações de paz avançando de forma lenta e difícil, o foco deve voltar para o efeito do fechamento do Estreito de Ormuz sobre a economia real. A questão mais crítica é se o impacto direto do aumento nos preços de energia irá se propagar para uma pressão inflacionária mais generalizada. O relatório de inflação de abril dos EUA, divulgado na terça-feira, será um dos primeiros a oferecer uma visão direta sobre o problema. Os economistas esperam apenas uma recuperação modesta no subíndice do núcleo da inflação, mas a incerteza é elevada. Os mercados de títulos em todo o mundo estão nervosos e têm pouca paciência para surpresas negativas de inflação. Uma série de dados de produção de março do Reino Unido e da Zona do Euro completará o calendário de eventos macroeconômicos da semana.
BRL
O real brasileiro deu continuidade à sua tendência de alta na semana passada, sustentado por PMIs de abril claramente expansionistas e pelo tom cauteloso transmitido pelas atas da última reunião de política monetária do Banco Central do Brasil (BCB). Por um lado, a atividade econômica brasileira mostrou uma recuperação em abril. O PMI composto ficou em 52,4 pontos, em comparação com a contração de 49,9 do mês anterior. Trata-se de uma recuperação que também foi observada em outras economias durante abril, coincidindo com a distensão do conflito no Oriente Médio.
Por outro lado, as atas do BCB reforçaram a expectativa de que o banco continuará com seu "ciclo de calibração". No entanto, a menção de que o comitê poderia ajustar o ritmo e a magnitude dos cortes em função da evolução do conflito sugere que o BCB está disposto a reduzir o afrouxamento monetário caso as circunstâncias o justifiquem. Por ora, o mais provável é que mantenha cortes modestos de 25 pontos-base enquanto avalia o desenrolar dos acontecimentos. Apesar de ter revisado para cima sua própria projeção de inflação e de observar certo desancoramento nas expectativas dos consumidores, o banco considera que o ciclo anterior de alta dos juros ainda pesa sobre a economia.
USD
Os dados de folha de pagamento não agrícola (nonfarm payrolls) de abril foram os mais recentes de uma série de relatórios econômicos a sugerir que a economia americana permanece, até o momento, praticamente intacta pelos efeitos da guerra com o Irã e pelos consequentes aumentos nos preços de energia. A criação de empregos voltou a crescer, e a média de 48 mil vagas líquidas por mês nos últimos três meses é incompatível com um afrouxamento do mercado de trabalho, considerando que a força de trabalho não está mais crescendo devido ao endurecimento das políticas de imigração e ao envelhecimento da população. Isso apenas confirma a mensagem dos pedidos semanais de seguro-desemprego, que na verdade têm caído ultimamente.
O temido apocalipse de empregos relacionado à IA não parece estar se materializando, já que os empregadores, em sua maioria, enxergam a tecnologia mais como um complemento do que como uma substituta para os funcionários. No entanto, as boas notícias econômicas pouco ajudaram o dólar americano na semana passada. Como temos observado ao longo do último ano, de forma um tanto paradoxal, dados econômicos relativamente sólidos dos EUA parecem ser plenamente compatíveis com a desvalorização do dólar.
EUR
Os comentários do BCE tomaram um tom mais hawkish recentemente, com a maioria dos membros do conselho enfatizando a necessidade de vigilância contra os efeitos de segunda rodada originados do aumento nos preços de energia. As expectativas de uma alta de juros na próxima reunião, em junho, continuam crescendo, e o contraste com a hesitação do Federal Reserve está reduzindo a diferença nas taxas de juros dos dois lados do Atlântico. Esse será um fator-chave de suporte para o euro no médio prazo, e esperamos que a gradual desvalorização do dólar continue até 2027.
No curto prazo, o euro permanece altamente suscetível ao conflito no Irã, que já está tendo um impacto negativo desproporcionalmente elevado sobre a economia da Zona do Euro — os PMIs de abril apontam para uma economia em contração. As próximas negociações de paz serão, portanto, cruciais para o par EUR/USD. Notícias sobre um acordo de paz temporário poderiam impulsionar ainda mais a moeda comum, embora haja bastante espaço para quedas caso as negociações fracassem, dado que grande parte das boas notícias já parece estar precificada pelos mercados.
