Mercados sofrem fortes oscilações com o colapso das negociações de cessar-fogo com o Irã

A recuperação dos ativos de risco impulsionada pelo otimismo em torno do cessar-fogo ficou suspensa durante o fim de semana. As negociações de cessar-fogo entre os EUA e o Irã colapsaram no Paquistão, e os EUA anunciaram que o Estreito de Ormuz ficará bloqueado para navios com destino ou procedentes de portos iranianos.
Os mercados tentam filtrar a enxurrada de notícias, mas tudo indica que os EUA estão ponderando a retomada de ataques limitados ao Irã. Por enquanto, os mercados estão recebendo a notícia com relativa tranquilidade: embora os preços do petróleo tenham subido, os futuros sobre ações tenham caído e o dólar tenha se recuperado, ainda não voltamos aos níveis anteriores ao cessar-fogo. Isso sugere que os investidores encaram o colapso das negociações como um obstáculo no caminho e um sinal de pressão negocial, e não necessariamente como algo capaz de desviar a trajetória rumo à paz.
O colapso das negociações de paz veio, porém, lançar incerteza nos mercados. As notícias provenientes da Casa Branca e os desdobramentos militares continuarão sendo os principais impulsionadores do mercado. O calendário econômico também não oferece muitos elementos capazes de desviar as atenções da guerra. Os preços ao produtor nos EUA em março, divulgados na terça-feira, a produção industrial da Zona do Euro em fevereiro na quarta-feira, e o PIB mensal do Reino Unido em fevereiro permitirão compreender melhor o impacto da guerra na atividade e nas pressões sobre os preços. Com a perspectiva de novos ataques norte-americanos e a certeza de um bloqueio aos portos iranianos, quaisquer expectativas de retomada da tendência de queda do dólar ficam agora adiadas.
BRL
O real brasileiro se valorizou mais de 2% frente ao dólar norte-americano na última semana, chegando perto do nível de 5 e atingindo seu patamar mais forte em dois anos. Os dados de inflação de março já refletem os primeiros efeitos da guerra no Oriente Médio. O índice geral subiu acima das expectativas, passando de 3,81% em fevereiro para 4,14% em março, registrando altas expressivas nos componentes de energia e alimentos, apesar das medidas adotadas pelo governo. Da mesma forma, a pesquisa com economistas elaborada pelo Banco Central do Brasil também aponta para uma elevação nas expectativas inflacionárias para 2026, situando-se acima do teto de tolerância do banco, em 4,71%. As expectativas de médio prazo também subiram, embora ainda se encontrem dentro desse intervalo. Embora acreditemos que isso não desencorajará o banco central de continuar seu ciclo de cortes de juros, entendemos que ele atuará com maior cautela, podendo reduzir o alcance do afrouxamento monetário este ano. Nesta semana, daremos especial atenção ao índice de atividade econômica IBC-Br, além das manchetes sobre a guerra do Irã.
USD
A inflação nos EUA disparou em março, como esperado, devido à forte alta nos preços da gasolina, que fez o índice geral subir quase 1% em apenas um mês. O subíndice núcleo se comportou melhor, mas o PCE de fevereiro contrariou essa boa notícia, registrando uma taxa anualizada em três meses de quase 5%. O índice de preços ao produtor de março, divulgado na terça-feira, normalmente não receberia muita atenção. Contudo, como indicador-chave de como o choque energético se propaga ao longo do processo produtivo, acompanharemos esse relatório com especial atenção.
Outros dados apontam para um impacto ainda bastante limitado da guerra na economia norte-americana, à exceção da alta nos preços da gasolina, que não é particularmente dramática em termos históricos. Os participantes do mercado continuam acreditando que o Federal Reserve ignorará essas altas temporárias da inflação geral, embora os futuros tenham voltado a descartar a possibilidade de qualquer corte este ano após o colapso das negociações de paz. Isso poderá, no entanto, mudar muito rapidamente caso surja algum sinal de avanço antes do término do cessar-fogo de duas semanas, na próxima quarta-feira.
EUR
A derrota do eurocético Primeiro-Ministro húngaro Viktor Orbán nas eleições do fim de semana deveria ter proporcionado pelo menos um suporte moderado ao euro, uma vez que elimina um obstáculo recorrente à tomada de decisões na União Europeia. No entanto, o colapso das negociações de cessar-fogo desloca toda a atenção de volta para a guerra. Não obstante o colapso das negociações, o EUR/USD continua negociando ligeiramente abaixo do nível de 1,17, o que nos sugere que os operadores ainda estão cautelosamente otimistas quanto à prevalência do bom senso e de que a paz duradoura continua sendo mais provável do que o contrário.
Por ora, esperamos que a moeda comum seja condicionada por dois fatores opostos. A seu favor está a crescente postura hawkish dos dirigentes do BCE, que está reduzindo o diferencial de taxas em relação ao dólar norte-americano. Contra ela pesam a exposição da Zona do Euro a custos de energia mais elevados, enquanto importadora líquida de energia, e a natural fuga para a relativa segurança do dólar norte-americano enquanto o conflito persistir.
